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Como os bancos em Portugal estão a usar Inteligência Artificial

Artigo 7

Introdução

O setor bancário em Portugal está a atravessar uma transformação profunda impulsionada pela inteligência artificial. Instituições como a Caixa Geral de Depósitos (CGD), o Millennium BCP, o BPI, o Novo Banco e o ActivoBank estão a investir significativamente em soluções baseadas em IA para melhorar a eficiência operacional, reforçar a segurança e oferecer experiências mais personalizadas aos seus clientes. Com a crescente digitalização dos serviços financeiros e as exigências regulatórias do Banco de Portugal e do Banco Central Europeu, a adoção de IA deixou de ser uma opção estratégica para se tornar uma necessidade competitiva. Neste artigo, exploramos as principais áreas em que os bancos portugueses estão a aplicar inteligência artificial e o impacto que estas tecnologias estão a ter no setor financeiro nacional.

Deteção de fraude em tempo real

A deteção de fraude é uma das aplicações mais críticas e maduras da inteligência artificial no setor bancário português. Bancos como o Millennium BCP e o BPI utilizam algoritmos de aprendizagem automática para analisar milhões de transações em tempo real, identificando padrões suspeitos que seriam impossíveis de detetar manualmente. Estes sistemas avaliam variáveis como a localização geográfica, o valor da transação, o histórico de compras do cliente e o dispositivo utilizado, atribuindo uma pontuação de risco a cada operação em milissegundos.

O Novo Banco, por exemplo, implementou sistemas de IA que reduziram significativamente os falsos positivos na deteção de fraude — um problema que tradicionalmente gerava bloqueios desnecessários de cartões e frustração nos clientes. A CGD, enquanto maior banco público português, tem vindo a modernizar os seus sistemas antifraude com modelos de deep learning capazes de se adaptar continuamente a novos esquemas fraudulentos, incluindo fraudes com pagamentos digitais e transferências instantâneas via MB WAY. Estas soluções não só protegem os clientes como também poupam milhões de euros anuais em perdas evitadas.

Atendimento ao cliente automatizado

Os chatbots e assistentes virtuais baseados em IA tornaram-se uma presença comum nos canais digitais dos bancos portugueses. O ActivoBank, reconhecido pela sua abordagem digital-first, foi um dos pioneiros na implementação de assistentes virtuais inteligentes que respondem a questões frequentes, ajudam na gestão de contas e orientam os clientes em processos como a abertura de conta ou a subscrição de produtos financeiros. O Millennium BCP disponibiliza igualmente um assistente virtual na sua aplicação móvel, capaz de processar linguagem natural em português europeu e resolver uma percentagem crescente de pedidos sem intervenção humana.

Estas soluções funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana, reduzindo os tempos de espera e libertando os colaboradores para tarefas de maior complexidade e valor acrescentado. Com os avanços recentes em modelos de linguagem de grande dimensão, os bancos portugueses estão a preparar a próxima geração de assistentes capazes de manter conversas mais naturais, compreender contextos complexos e até antecipar as necessidades dos clientes antes de estes as expressarem.

Análise de risco de crédito

A avaliação do risco de crédito é outra área onde a IA está a revolucionar as práticas dos bancos em Portugal. Tradicionalmente, a decisão de conceder um empréstimo dependia de critérios rígidos e de uma análise manual demorada. Hoje, instituições como o BPI e a CGD utilizam modelos preditivos de IA que analisam centenas de variáveis em simultâneo — desde o histórico financeiro e a estabilidade profissional até padrões de comportamento digital — para calcular a probabilidade de incumprimento com uma precisão muito superior aos métodos convencionais.

Esta abordagem permite decisões de crédito mais rápidas, frequentemente em minutos em vez de dias, e contribui para uma maior inclusão financeira ao identificar clientes com bom perfil de risco que seriam rejeitados pelos critérios tradicionais. O Banco de Portugal acompanha de perto esta evolução, assegurando que os modelos de IA utilizados na concessão de crédito são transparentes, auditáveis e não discriminatórios, em conformidade com as diretrizes europeias sobre IA responsável no setor financeiro.

Personalização de serviços financeiros

A personalização é um dos grandes diferenciadores competitivos proporcionados pela inteligência artificial. Os bancos portugueses estão a utilizar algoritmos de IA para analisar o comportamento financeiro dos clientes e oferecer produtos e serviços adaptados às suas necessidades específicas. O Millennium BCP, por exemplo, utiliza sistemas de recomendação que sugerem produtos de poupança, investimento ou seguros com base no perfil e nos objetivos financeiros de cada cliente.

O ActivoBank aproveita a IA para criar dashboards personalizados que ajudam os clientes a compreender os seus padrões de despesa e a definir metas de poupança realistas. O BPI, integrado no grupo CaixaBank, beneficia de algoritmos avançados de segmentação que permitem campanhas de marketing altamente direcionadas, aumentando as taxas de conversão e a satisfação dos clientes. Esta hiperpersonalização, alimentada por dados e IA, está a transformar a relação entre os bancos e os seus clientes, tornando-a mais relevante e proativa.

Automação de processos internos

Para além das aplicações orientadas ao cliente, a IA está a transformar profundamente os processos internos dos bancos portugueses. A automação robótica de processos (RPA), combinada com inteligência artificial, permite automatizar tarefas repetitivas como a reconciliação de contas, o processamento de documentos, a verificação de conformidade regulatória e a gestão de relatórios. A CGD tem vindo a implementar soluções de processamento inteligente de documentos que utilizam reconhecimento ótico de caracteres (OCR) e processamento de linguagem natural para extrair e validar informações de contratos, formulários e documentos de identificação.

O Novo Banco investiu em plataformas de automação inteligente que reduziram significativamente o tempo necessário para processar operações de back-office, desde a abertura de contas empresariais até à gestão de reclamações. Estas iniciativas não só aumentam a eficiência como também reduzem erros humanos e libertam os colaboradores para funções que exigem julgamento crítico e relacionamento interpessoal, contribuindo para uma força de trabalho mais qualificada e motivada.

O papel da regulação no setor bancário

A adoção de IA no setor bancário português está intrinsecamente ligada ao enquadramento regulatório europeu e nacional. O Banco de Portugal, enquanto supervisor do sistema financeiro, tem emitido orientações específicas sobre a utilização responsável de inteligência artificial, com particular atenção à transparência dos algoritmos, à proteção de dados pessoais ao abrigo do RGPD e à prevenção de enviesamentos discriminatórios nas decisões automatizadas. O Regulamento Europeu de Inteligência Artificial (AI Act), que entrou em vigor, classifica várias aplicações bancárias de IA como de alto risco, exigindo avaliações de impacto, documentação detalhada e supervisão humana.

Os bancos portugueses estão a adaptar-se a este quadro regulatório investindo em equipas de governação de IA, frameworks de ética e auditoria algorítmica. Esta abordagem regulada, embora exija investimentos adicionais, confere aos bancos portugueses uma vantagem competitiva em termos de confiança e credibilidade junto dos clientes e dos mercados internacionais, posicionando Portugal como um exemplo de adoção responsável de IA no setor financeiro europeu.

Conclusão

Os bancos em Portugal estão a demonstrar que a inteligência artificial não é apenas uma tendência tecnológica, mas um motor real de transformação do setor financeiro. Da deteção de fraude à personalização de serviços, da análise de risco à automação de processos, a IA está a tornar os bancos portugueses mais eficientes, seguros e centrados no cliente. Com o apoio de um enquadramento regulatório robusto e o compromisso crescente das instituições financeiras, Portugal está bem posicionado para se afirmar como um mercado de referência na aplicação responsável e inovadora de inteligência artificial no setor bancário europeu. O desafio para os próximos anos será garantir que esta transformação digital beneficia todos os segmentos da população, promovendo a inclusão financeira e a literacia digital em todo o país.